JORNAL PERNAMBUCANOS IMORTAIS

Doze artistas populares são os primeiros contemplados por lei que dá suporte financeiro a quem se dedica continuamante ao ofício

ADRIANA DÓRIA MATOS / Especial para o JC

Artistas muitas vezes não têm emprego ou jamais tiveram carteira assinada. Pressionados pela informalidade inerente à atividade, alguns mantêm empregos em áreas distintas, para garantir o sustento e poder realizar obras artísticas, quando não desistem simplesmente de seguir com a arte. Dificuldades financeiras são mais facilmente contornadas por artistas de classe média e alta, mas o mesmo nem sempre acontece com artistas populares, que não contam com suportes externos. Nesse contexto, é mais que bem-vinda a Lei do Registro do Patrimônio Vivo de Pernambuco, que contempla com bolsas vitalícias artistas populares que se dedicam comprovadamente ao ofício. A partir de agora, os primeiros artistas e grupos culturais beneficiados passam a receber mensalmente, R$ 750 (pessoa física) e R$ 1,5 mil (grupo).

A divulgação dos nomes dos 12 artistas e grupos que receberão o auxílio nesta primeira leva foi feita em 29 de dezembro de 2005, pelo governador Jarbas Vasconcelos, em reunião da qual participaram integrantes do Conselho Estadual de Cultura, o secretário de Planejamento, Raul Henry, e o secretário estadual de Educação e Cultura, Mozart Neves Ramos. A lei prevê que, a cada ano, sejam indicados três artistas para a bolsa. Esta ano foram 12 porque a medida é retroativa a 2002, ano de criação da lei. Tanto os artistas quanto os grupos culturais escolhidos precisam estar em atividade há pelo menos vinte anos ininterruptos.

Os artistas contemplados foram: Canhoto da Paraíba (Francisco Soares de Araújo), Mestre Camarão (Reginaldo Alves Ferreira), Lia de Itamaracá (Maria Madalena do Nascimento), Mestre Salustiano, Manuel Eudócio, Ana das Carrancas (Ana Leopoldina Santos), Nuca (Manuel Borges da Silva), Zé do Carmo, J. Borges (José Francisco Borges), Dila (José Soares da Silva) e os grupos Maracatu Carnavalesco Misto Leão Coroado e banda de música Sociedade Musical Curica.

A maioria dos artistas e grupos culturais indicados são expressões da música e da produção em cerâmica, exceções feitas aos cordelistas J. Borges e Dila. Em termos de representação municipal, há artistas de Caruaru, Bezerros, Goiana, Petrolina, Tracunhaém, entre outros. Também, são artistas idosos, alguns octagenários, que têm sua força de trabalho e produção reduzidas pela idade e que, de fato, precisam de uma aposentadoria e que têm contribuição incontestável à cultura popular.

O depoimento de Lia de Itamaracá expressa a importância da bolsa para o artista: “A pessoa ser classificada de patrimônio é uma alegria e um reconhecimento muito grande. Também é bom financeiramente, uma tranqüilidade para a velhice. Eu não vou poder dançar ciranda até o fim da vida”. Lia diz também que a Lei do Patrimônio Vivo de Pernambuco é uma batalha antiga, que chega em ótima hora na vida desta cirandeira, que também é merendeira.

De acordo com o Governo do Estado, os artistas contemplados assumirão compromisso de repassar seus conhecimentos a alunos e aprendizes, em programas que serão promovidos futuramente. A intenção é que o artista não se restrinja ao benefício conquistado, mas que este lhe sirva de estímulo à produção e ao repasse de informações, dando continuidade à tradição popular, através da educação de novos agentes artísticos. O processo de seleção dos contemplados partiu do Conselho Estadual de Cultura, que recebeu 133 pedidos de artistas inscritos para concorrer às bolsas junto à Fundarpe. As propostas foram analisadas por uma comissão especialmente criada para isto. Encerrrada a primeira fase de seleção, os aceitos foram submetidos ao parecer da Secretaria Estadual de Educação e Cultura e, em seguida, encaminhados ao Conselho Estadual de Cultura, responsável pela escolha dos contemplados.