::::: Literatura virtual : 10 contos de rés :::::

Os problemas surgidos com os novos terminais de ônibus no centro da cidade afetaram uma larga faixa da população, modificando hábitos e costumes antigos. – E aí, Zé Pereira, que achou dessas novas modificações da Prefeitura, como usuário? – Um pouco atrapalhado… só não sei o que é usuário. – Você não usa os coletivos? Então é usuário! – Sim, sim, mas para ser usuário tem que fazer alguma inscrição, pagar alguma taxa, ter escolaridade? – Não, Zé. Usuário é o nome da pessoa que utiliza algum serviço público, feito o ônibus! E então, você está atrapalhado com essas modificações? – Tá tudo muito bem, só tem um problema: estou há mais de dez dias sem botar os pés em casa! – Por que? Brigou com a esposa? – Não, imagina! Até agora não consegui pegar o meu ônibus. É muita fila. Toda vez que entro numa fila, não dá para saber nada. Eu pego um ônibus… – Puxa, mas você não lê os letreiros, o destino do ônibus? – Não senhor, eu não sei ler, eu pergunto que ônibus é aquele, aí o pessoal diz que passa onde eu moro… – Oxente! – Pois é, eu pego o ônibus, quando eu vejo estou no Ibura, Boa Viagem, Casa Amarela, mas não é o meu bairro, assim por diante. – E o que você faz?  – Aí, eu salto, entro num botequim encho a cara, e apago. No dia seguinte, começa tudo novamente. – Já viajou em quantos ônibus sem acertar o caminho de casa? – Perdi a conta. Ontem acho que cheguei perto de casa. Eu estava num dos morros. De lá vi o meu bairro. – Como é que o senhor faz para trocar de roupa? – O pessoal me dá roupas usadas, vou me virando. Mas não estou achando ruim, não. Graças à Prefeitura estou conhecendo a minha cidade, novos bairros. Hoje de manhã, quando eu vinha pra cá, aconteceu uma coisa engraçada. O ônibus estava tão lotado, que só consegui passar uma perna pela borboleta e o diacho do cobrador queria cobrar meia passagem, pode? Foi uma briga danada. Se eu não passasse o resto do corpo, não ia ter troco! – Muito obrigado Sr. Zé Pereira pela entrevista.  – De nada, qualquer coisa disponha… – … que ônibus o senhor tá pegando agora? – Não sei, não. Mas como ele está vazio vou aproveitar, não é todo dia que a gente viaja sentado, né?


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