Nova pagina 1

Negras que se tornavam amas-de-leite tinham `regalias´ na casa-grande e satisfaziam as fantasias sexuais dos senhores As negras escravas eram também amas-de-leite e cuidavam das crianças da casa-grande Maria da Conceição Santiago foi logo pedindo um copo d”água, que era para esfriar o sangue quente das andanças pela rua. Entrara naquela casa desconhecida por puro acaso. Uma garota a levou para dentro, perguntando-lhe se ainda tinha algum `pinguinho´ de leite nos seios. “É para um neném, que a mãe dele está morrendo”, explicou. A negra Maria, recém-parida, e cujos peitos guardavam leite que daria para abastecer um batalhão de crianças famintas, não se negou à caridade. Bebeu a dita água, esfriou o sangue, e tomou o menino no colo. Entrou na casa para amamentar por um dia. Acabou ficando lá por toda a vida. Os donos da casa pediram que Maria ficasse. Não receberia salário, mas moradia e comida. “Minha mãe ficou com pena deles, e foi logo arranjando uma vassoura para arrumar a casa”, explica a filha, Dulce Maria da Conceição, 75 anos. E assim Maria foi ficando, ficando. Exercia as funções de empregada doméstica, mas sem remuneração. Em tempos de crise financeira dos patrões, chegou a trabalhar fora para dar todo o seu dinheiro ao sustento de uma casa e uma família que não eram suas. Nessa família emprestada, Dulce nasceu. “Fui feita dentro de casa”, explica. Dulce é filha do filho do patrão de sua mãe; ou, se preferir, filha do seu irmão de leite, para complicar ainda mais a história. “Eu chamava ele de padrinho, porque ele não podia assumir. Sabe como é, naquela época, as empregadas não podiam negar a vontade do patrão”. Essa história aconteceu há quase cem anos em Cachoeira, cidade com forte herança colonial. Dulce diz que sua mãe nunca foi escrava – talvez nem houvesse tempo para isso, afinal, nesse período, a princesa Isabel já tinha sacado sua pena e assinado a Lei Áurea. Mas que a cena contada por Dulce lembra muito a escravidão, isso lembra. Foi assim que começaram as histórias das amas-de-leite no Brasil. Havia sempre uma troca de favores muito desigual, e uma mistura danada de famílias. Origem da miscigenação “Nas famílias coloniais, eram muito comuns misturas entre escravos e senhores, o que deu origem à atual configuração do povo brasileiro”, explica o historiador Cacau Nascimento. As escravas que viravam amas-de-leite eram escolhidas a dedo. Tinham que preencher alguns pontos básicos no currículo: geralmente, as `vagas´ iam para as mais bonitas, fortes e limpas. Essa informação está em Casa-Grande e Senzala, livro em que Gilberto Freyre observa: “A negra mulata para dar de mamar a nhonhô, para niná-lo, preparar-lhe a comida e o banho morno, cuidar-lhe da roupa, contar-lhe histórias, às vezes para substituir a própria mãe – é natural que fosse escolhida dentre as melhores escravas da senzala””. Essas mulheres tinham lá seus privilégios em relação aos outros serviçais. Como eram escravas de dentro de casa, comiam melhor e dormiam melhor – ou então, nem tão melhor assim. Havia um preço pelas “regalias” – termo que chega a ser sarcástico, já que, em se tratando de escravidão, “regalia” quer dizer miséria um pouco menos sofrida. Por conta dos critérios de seleção apuradíssimos, era natural que as amas-de-leite despertassem a libido dos seus senhores ou fizessem pipocar ainda mais os já agitados hormônios dos seus filhos adolescentes. Muitas amas-de-leite acabaram engravidando de seus patrões que – adivinhem – não assumiam as crianças. Ou então, eram cobaias na iniciação sexual dos meninos, como ocorre até hoje, de forma mais velada, com muitas empregadas domésticas. A exploração parecia sem fim. Mas os senhores não enxergaram o que era cristalino, ou, como diria Nelson Rodrigues, o óbvio invisível. Apesar da opressão, uma revolução silenciosa acontecia nas casas-grandes. Não era mera coincidência que os seios das escravas tivessem a mesma cor da terra fértil e molhada; se as brancas engravidavam, eram as negras que regavam a cria. E não era apenas o leite dessas mulheres que se impregnava nas veias dos meninos brancos. Aos poucos, as amas-de-leite também alimentavam os filhos dos senhores com as histórias da África, o culto aos orixás, o fascínio pelas lendas populares. Para os adultos, a ama-de-leite era um pouco mais que uma vaca leiteira. Para os meninos, muitas vezes era mais mãe do que a sinhazinha. “As crianças se reuniam em volta das mães pretas, que contavam histórias fascinantes. Às vezes, as histórias tinham a função de assustar um pouco a criança, impedindo-a de fazer algo errado”, explica Cacau Nascimento. Algumas mães pretas tinham, por exemplo, uma ótima explicação para o fato de os cágados terem o casco todo dividido: ao pegar carona no lombo do crápula do urubu, o cágado teria sido derrubado de propósito, no meio do caminho para uma festa lá na terra – ou melhor, nas nuvens – de São Pedro. Depois, Deus colara todos os pedacinhos. É ou não é uma versão bem melhor do que as dos livros de biologia? Outros oceanos Antes da colonização, era tudo diferente; não havia amas-de-leite por aqui. Pelos registros históricos, as nossas índias não deram seus peitos nus aos filhos das amigas de tribo. A tradição só desatracou no país após longa viagem a bordo dos porões dos navios negreiros e também das caravelas portuguesas. Na África, as mulheres amamentavam os filhos das outras por solidariedade. E lá pelas bandas da Europa, as amas-de-leite também existiam, porque amamentar era considerado um ato humilhante. Imagine se as finas damas iriam fazer a desfeita de desabotoar o corpete no meio de um chá ou de um bailinho… A médica e pesquisadora Martha Freire, que estuda a história da puericultura no Brasil, explica: “Amamentar já foi uma atividade considerada indigna”. Calar a boca de um bebê chorão com leite atrapalhava completamente os importantes chás, recepções e outros afazeres sociais das damas finas. Além disso, os médicos diziam que as profanagens dos leitos noturnos não combinavam com o sagrado gesto de dar leite aos meninos. “Entre a saúde do filho e o prazer do marido, a escolha pelo marido era muito clara”, diz Martha Freire. Em Casa-Grande e Senzala, Gilberto Freyre levanta outras razões, mais trágicas: muitas mães biológicas não davam leite aos seus filhos porque morriam cedo demais para isso. Freyre explica: “Um fato triste é que muitas noivas de 15 anos morriam logo depois de casadas. (…) Morriam de parto – vãs todas as promessas e rogos a Nossa Senhora da Graça ou do Bom Parto. Sem tempo de criarem nem o primeiro filho. Sem provar o gosto de ninar uma criança de verdade em vez dos bebês de pano, feitos pelas negras com restos de vestidos. Ficava então o menino para as mucamas criarem. Muito menino brasileiro do tempo da escravidão foi criado inteiramente pelas mucamas. Raro o que não foi amamentado por negra. Que não aprendeu a falar mais com a escrava do que com o pai ou a mãe. Que não cresceu entre moleques”.

Os meninos ricos mamavam primeiro, e assim não bebiam a parte do leite que contém gordura – logo, não ganhavam peso. Enquanto isso, os filhos da escravidão ficavam cada vez mais gordinhos. Os senhores de engenho nunca entenderam; achavam que as escravas estariam escondendo leite. Possivelmente, alguns filhos de escravas foram sacrificados, para que a fome dos seus meninos não atrapalhasse o aluguel das amas. “Alugam-se amas-de-leite sem criança”, era o que muitos anúncios de jornais antigos diziam. Bebês negros foram furtados não apenas do leite que Deus havia regado nos seios de suas mães, mas também da própria vida, que também Ele semeara nos ventres férteis das escravas. Mortos os frutos da criadagem, sobrava muito mais leite para regar os filhos dos senhores de engenho. Como vampiros inocentes, os meninos ricos se alimentavam do líquido branco que sangrava do peito dolorido das escravas de luto.